Mefe

Mefe (em georgiano antigo: ႫႴ; em georgiano: მეფე [ˈmepʰe]) é um título real[2] usado para designar o monarca georgiano, quer se refira a um rei ou a uma rainha reinante.[3][4] O título era originalmente um título masculino de governo.[5]
Etimologia
[editar | editar código]A palavra é derivada da palavra georgiana meufe (მეუფე)[6] que significa literalmente soberano e senhor.[7][8] Alguns dialetos georgianos têm o termo nefe (ნეფე), todos derivados do proto-cartevélico comum mf/mefe/mafa (მფ/მეფე/მაფა).[9] Embora mefe tenha um equivalente feminino, dedofali (დედოფალი; lit. 'rainha'),[10] ele é aplicado apenas à consorte do rei e não tem o significado de um monarca governante.[11]
História
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O termo mefe foi utilizado desde os primórdios pré-cristãos com Azão, mas o papel se tornaria mais estruturado no reinado de Farnabazo I[13] no século III a.C..[14] Seus sucessores, os mefes farnabázidas,[b] seriam intitulados golias[15] que possuiriam 𐬓𐬀𐬭𐬆𐬥𐬀𐬵 (fazna; lit. 'esplendor real'),[16] a glória divinamente dotada que os antigos persas acreditavam[b] marcar apenas um governante legítimo,[17] acompanhado de didebai (დიდებაჲ; lit. 'grandeza') e sue (სუე; lit. 'fortuna; destino').[18] O reinado do monarca georgiano era conhecido como mefobai (lit. 'realeza').[19][20] A perda de farna e sue levou à morte iminente ou à queda do mefe.[21]
No final do século VI, o Império Sassânida aboliria a realeza georgiana do Reino da Ibéria, resultando no interregno que se estendeu de c. 580[c] a 888 como um principado rebaixado.[22][23] Apesar da monarquia estar em suspenso e do governo real se desintegrar, os governantes do principado continuariam a reivindicar que fossem chamados de mefes e helmetsife (ჴელმწიფე, helmts'ipe; lit. 'soberano').[24] Após a restauração de 888[25][26] (ou 889)[27] sob a dinastia do mefe Adanarses IV (r. 888–923), o novo reino emergiria como a fusão de muitas terras e territórios, o que levaria a uma unificação georgiana total em 1008.[28]
No século XII,[29] o mefe bagrátida[d] Davi IV, o Construtor (r. 1089–1125) se estabeleceu como a força política e militar superlativa da região.[30] Com seu impulso ambicioso e sofisticado à promoção das imagens reais de seu reino,[31] o estilo oficial de um rei se tornaria imperial[32] e o rei adotaria os títulos de tuitemefacrobeli (თჳთმპყრობელი, tuitmp'q'robeli; lit. "mestre absoluto",[33] ou seja, autocrator)[34] e mefet[a]mefe (მეფეთ[ა]მეფე, mepet[a]mepe;[35][36][e] lit. "rei dos reis"), semelhante ao bizantino "rei de reis" (βασιλεὺς βασιλέων) e o persa xainxá (شاهنشاه).[37] A projeção real de Davi IV de seu título grandioso foi parcialmente direcionada a um público não georgiano.[38] O título xainxá foi mais tarde totalmente usurpado[39] e consistentemente usado por monarcas georgianos, denotando soberania sobre vários súditos persas, como os xás de Xirvão, os xadádidas e os ildeguízidas.[40] O culto real de um monarca atingiria seu zênite com uma governante feminina, Tamara, cuja execução de poder inauguraria a Idade de Ouro da Geórgia, sendo ela denominada Tamara, a mefe.[41] Tamara recebeu os títulos mais longos e elaborados nas cartas reais, listando todos os povos e terras que governou como uma mefetamefe semissanta.[42] O mefe Bagrationi, com sua legitimidade real[e] e pilar ideológico, governaria a Geórgia por um milênio, desde sua elevação medieval até a conquista russa no início do século XIX.[43]
Notas
[editar | editar código]- [a] ^ Os termos ႫႴ (mp), ႫႴႤ (mp'e) e ႫႤႴႤ (mep'e) foram usados simultaneamente. Essas abreviaturas eram comuns em georgiano.[44]
- [b] ^ Os farnabázidas eram fascinados pela estrutura persa da administração real, mas cultivavam relações estreitas com os selêucidas helenísticos.[45] Os reis georgianos pré-cristãos se modelaram num mesmo traje heroico do ciclo épico e das imagens iranianas,[46] também incorporando várias alusões à Bíblia hebraica e às fontes siríacas clássicas.[47] Os governantes georgianos pré-cristãos identificaram a Pérsia como a "terra dos herois e gigantes", um posição exaltada que nunca foi concedido ao Império Romano ou ao Império Bizantino.[48]
- [c] ^ Os cosroidas foram destronados após a morte do rei Bacúrio III (r. ?–580).[49] Os filhos de Bacúrio permaneceriam na zona montanhosa da Caquécia[50] e sua linhagem governaria a região como príncipes titulares denominados metavari.[51]
- [d] ^ Os bagrátidas restauraram a autoridade real logo após sucederem os cosroidas e tomarem o Principado da Ibéria em 813.[52][53] Eles trouxeram rápida expansão e consolidação dentro das políticas georgianas. Os monarcas Bagrationi baseariam grande parte de sua cultura modelando e competindo intensamente com os imperadores bizantinos.[54] Frequentemente reivindicavam o estatuto de santos e se ligavam ao simbolismo divino e eucarístico, tinham pretensões de linhagem davídica,[55] sua superioridade real sempre retratava halos e coroas e cercada por santos guerreiros.[56] O ícone do século XII preservado na coleção do Mosteiro de Santa Catarina no monte Sinai mostra Davi IV, denominado "imperador piedoso", de pé ao lado de São Jorge e recebendo a coroa de Jesus Cristo.[57] Os reis bagrátidas expandiriam sua autoridade além dos confins da própria Geórgia, transformando o reino em uma potência imperial.[58] A "bizantinização" imperial da Geórgia resultaria no abandono do seu uso tradicional da liturgia siro-palestina; na presença de milhares de monges georgianos em todas as terras bizantinas, incluindo Síria, Palestina, Egito, Chipre, Anatólia, Bulgária, no monte Atos; e na troca bizantino-georgiana de casamentos diplomáticos.[59]
- [e] ^ O primeiro rei georgiano a assumir o título de "mefet[a]mefe" foi Gurgenes II (r. 994–1008),[60] mas o termo se tornaria absoluto e universal durante e depois de Davi IV.[61][62] O título de Gurgenes é elaborado pelo cronista encomendado pelos bagrátidas, Simbácio, filho de Davi, explicando que Gurgenes era um mefe e pai de outro mefe. Gurgenes governou o Reino dos Iberos, enquanto seu filho, Pancrácio III, liderou o Reino da Abecásia.[63]
- [f] ^ A realeza georgiana tinha uma devoção obstinada e firme às regras do legitimismo [64] e a sucessão dinástica como um novo mefe deveria ter uma conexão biológica e/ou matrimônio com uma família existente.[65] Os farnabázidas, cosroidas e bagrátidas eram relacionados por descendência, casamento misto e adoção.[66]
Referências
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- ↑ Rapp 2003, p. 472.
- ↑ Rayfield 2013, p. 1292.
- ↑ Rapp 2003, p. 263.
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- ↑ Klimov 1998, p. 196.
- ↑ Klimov 1998, p. 195-215.
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- ↑ Eastmond 1998, p. 109.
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- ↑ Rapp 2003, p. 182.
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- ↑ Bakhtadze 2015, p. 1-4.
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Bibliografia
[editar | editar código]- Bakhtadze, M. (2015). Georgian titulature of Tao-Klarjeti ruling Bagrationi dynasty, Ivane Javakhishvili Tbilisi State University, Institute of Georgian History Proceedings, IX, Tbilisi. Tiblíssi: Publishing Meridiani
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- Eastmond, A. (1998). Royal imagery in medieval Georgia. Filadéldia: Pennsylvania State University. ISBN 978-0-271-01628-3
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- Rapp, Stephen H. (2003). Studies In Medieval Georgian Historiography: Early Texts And Eurasian Contexts. Lovaina: Peeters Publishings. ISBN 90-429-1318-5
- Rapp, Stephen H. Jr. (2014). The Sasanian World through Georgian Eyes: Caucasia and the Iranian Commonwealth in Late Antique Georgian Literature. Farnham: Ashgate Publishing, Ltd. ISBN 1472425529
- Rayfield, D. (2013). Edge of Empires: A History of Georgia. Londres: Reaktion Books. ISBN 9781780230702